Vielas de solidão.

Fui obrigada a recordar-te, porque inevitavelmente estás em todo o lado, em cada relógio dos últimos tempos da minha vida. É impossível passar tempos e tempos sem tocar no teu nome, que ainda fazem as minhas  formiguinhas andarem à volta do meu estômago. E embora haja dias que são completos sem ti, há outros em que a tua ausência se torna insuportável e me canso de gostar tanto de ti, de dedicar-te os meus sonhos e de te dar o papel de protagonista dos meus pensamentos.
Já fomos muito, já fomos o céu e o mar. Hoje, somos as recordações resumidas pelo tempo, aquelas que quase se perdem no agitar das ondas, cuja melodia se faz soar pela praia de areia gelada.

O tempo passa e leva consigo tantos sentimentos,tantas loucuras, tantas chuvas de Outono e raios quentes de verão. Apagou tantas tardes gélidas passadas no meu quarto em que as minhas lágrimas foram o meu cobertor e tantas manhãs que se cobriram de neve, ao despertar e tomar consciência que te contínuo a amar. (..)
Além de deixar para trás muito coisa que vivi e alguém que eu amei, ainda tenho que saber deixar o passado de lado quando é necessário, quando se torna impossível esquecê-lo. Não é por acaso que escrevo para ti, nem que choro a ver as fotos, as nossas fotos.. não é por acaso que em cada memória tua me vem logo as lágrimas aos olhos, por passar ruas, caminhos, estradas, parques onde fomos felizes. Cheguei à conclusão, que os meus olhos foram a máquina fotográfica da nossa vida, guardou momentos e focou pormenores pela qual eu hoje tenho saudades, tal como um abraço, um sorriso verdadeiro, um adoro-te.. A minha fraqueza está quando eu digo que já superei tudo isso, está nas minhas falsas palavras quando digo que já não me importo, que já não dói! Mas dói, dói como da primeira vez que me deixas-te à deriva, e esta dor por vezes torna-se tão insuportável que não sei como é que ela ainda cabe dentro de mim e ainda não fui ao teu encontro. Eu só soube o que era a felicidade quando estava na tua presença, mas tu fizeste-me ver que na realidade as coisas não eram bem assim e que não podia depender de alguém para toda a minha vida, conseguiste dar-me tudo mas também me conseguiste tirar tudo, onde ainda hoje, eu tento recuperar, não aquilo que vivi no passado, mas sim recuperar as forças, recomeçar a fazer uma nova vida sem estares aqui, fizeste-me começar do zero! Ontem não estiveste, hoje continuo a estar sem ti e sei que amanhã será de novo a mesma rotina! É verdade.. tu mudaste com a vida e a vida mudou contigo, se calhar tiraste da tua vida quem não querias para meter alguém que hoje só te sabe fazer mal e isso não é justo, mas a esperança de que um dia cais na realidade, que consigas abrir os olhos nunca vai acabar, nem que sejam mais meses e meses a sentir a tua falta, a esperar e a desesperar que me abraças e me voltes a dizer 'estou aqui'. Só desejo que estejas bem nesse teu mundo a preto e branco, que estejas felizes pelas tuas infelizes decisões e pela tua nova vida que não vai passar disso mesmo, de uma vida sem sentido. Só te desejo, mais uma vez, que essas pessoas que neste momento são o teu mais que tudo, nunca mais te voltem a desiludir, que tratem bem de ti, tal como eu cuidei de ti durante meses, que nunca te deixem ficar mal.. mas por mais que elas façam isso, nunca vai haver alguém que por mais presente que esteja na tua nova vida, te ame tal e qual como te amei, com todas as forças, com todo o sangue! Não vou gritar mais o teu nome em noites onde só eu sei o que era a dor de não te ter, eu não vou mais desejar que voltes mas eu vou esperar sem esperar por ti, e se ainda hoje o faço, é porque sei aquilo que foste, não aquilo que hoje és.. uma desconhecida em meu redor, uma desconhecida que conheci melhor que o meu coração, melhor que a mim própria.. tornaste-te nisto mesmo, numa desconhecida por vielas da minha solidão.


Hoje vi diante de mim o fim de uma vida. Perguntei-me a mim mesma 'tanto sofrimento para quê? Acabamos todos da mesma forma, num buraco escuro e sem ninguém.
Não volto a chorar por ti, porque ao contrário de outras pessoas, tu escolheste ir embora.




(1955-2010, Descansa Em Paz.)

Sem comentários: